sexta-feira, 6 de março de 2009

OUTRA VIDA




Durmo um sono e lentamente caio num torpor, numa dormência e vou recuando no tempo…
Estou no meu nascimento.
Minha mãe, está cansada, cheia de dores mas com um ar de alívio e satisfação. Está só comigo e seu pai na sala de espera da maternidade Bissaia Barreto. Meu pai encontra-se na tropa, no hospital militar de Lisboa a recuperar de um acidente de viação com uma viatura dos Lanceiros, aonde presta serviço. Saberá que nasci dois dias depois.

Nasci pelas 5 horas da manhã do dia 30 de Abril de 1969, com 5,5º kg de peso por 65 cm de comprimento sou um grande bebé... Grande mesmo.

Recuo ainda mais no tempo… ao tempo em que meu tetravô é Guarda da rainha Dona Amélia e só podia ir a casa de 4 em 4 meses, com o pré para dar a minha tetravó.

Pairando numa névoa começo a deslumbrar os meus bisavós. O meu bisavô João nas trincheiras da Flandres durante a 1ª Grande Guerra e de onde trouxe o mal dos pulmões, devido aos consecutivos gaseamentos que teve de suportar nas trincheiras, durante o conflito. Mas não seria a causa da sua morte e sim um atropelamento na antiga estrada nacional nº1, quando passava um carro de hora a hora.
Sua esposa Maria Justina vejo-me com ela ao lume, por baixo da boca do forno, com uma panela de ferro e o chão de terra batida, pois só a casa designada alta tinha chão de madeira. Conta-me uma história e dá-me uma amálgama de sopa pedindo-me para que vá depois buscar ¼ de litro de azeite á “venda do Ti Fininho”.
A mercearia era um mundo dentro de outro. O medidor de azeite, que me faz recordar o medidor de gasolina para motorizadas, seus frascos enormes com guloseimas, os alçapões aonde estavam os cereais e suas estantes cheias de surpresas infindáveis. Bebo um “pirolito” com satisfação pensando numa maneira de retirar o berlinde do interior de seu gargalo…

Vejo-me cheio de medo junto ao leito da minha bisavó Maria Ferreira, toda branquinha e a ralhar por não estar quieto. Seu quarto é na casa alta por ter rés-do-chão e primeiro andar, que foi construída com o dinheiro que meu avô Cação foi ganhar para o Brasil e dos pinhais que tinha.
Viajo com ele no barco super lotado de emigrantes que vão em busca de melhores vidas, uns fugindo da república e suas constantes conturbações, outros da miséria e como ele em busca de dote suficiente para poder casar. As suas dificuldades num mundo diferente e que não suporta, faz com que regresse mais rápido que o previsto a casa, mas com o dito dote para o casamento.
Estou vendo-o a trabalhar na escola Avelar Brotero, aonde é contínuo, está feliz, pensa nos seus três filhos (meu pai, meu tio Fausto e minha tia) e na sua esposa que sempre foi seu amor.
Tenho um sobressalto, estou num banco de jardim em Lisboa com minha mãe e meu avô Cação. Fomos visitar o meu pai ao hospital. Será a nossa primeira vez cara a cara e tenho medo… Interrogo-me se gostará de mim, se serei aquilo que sonhou, ou se estou dentro das suas expectativas…
De repente estamos na nossa primeira casa que é a casa dos meus avós. Estou com minha mãe e chega o meu pai do trabalho da oficina “Auto Vitória”, aonde é escriturário. Começa a discussão entre eles os dois devido a isto e aquilo…
Estou no meu quarto… tenho 6 anos e vou pensando como será a tal coisa da escola primária de que tanto falam os meus pais. Mas penso mais nas férias que vamos ter na auto-caravana que meu pai comprou e nos “Legos” novos que me trouxe hoje. Os meus amigos batem á porta de nossa casa nos Sargento-Mor vêem todos ver os “Legos”… Estou tão feliz tudo está no seu lugar, como deve estar.

Vejo uma névoa negra envolver-me e desperto dentro do “Ami8” todo destruído… Entra-me nas narinas o cheiro a terra e os gritos de minha mãe nos meus ouvidos… É fim de tarde e acabaram aqui as férias tão desejadas. Escuto meu pai a dizer que tinha partido a direcção do carro, enquanto comemos uma refeição num restaurante e não tiro os olhos daquela broa do tamanho de uma roda… Nunca tinha visto uma tão grande.

Estou a brincar na areia com meu avô José dos Santos, estamos na praia dos palheiros da Tocha. Minha mãe e minha avó estão a preparar o bacalhau e batatas junto ao poço da casa do guarda. Meu pai ainda está retirando algumas das batatas que estavam enterradas e foram assadas na areia. Estou entusiasmado com o passeio de fim-de-semana e tem sido fantástico. Adoro o cheiro a maresia, o azul do mar que me faz imaginar mil aventuras e sentir uma paz e plenitude.

Meu coração parece querer saltar do peito e não sei porquê… ando a correr com uma bandeira na mão pelo meio das pessoas que estão no estádio Universitário de Coimbra, para festejar o 1º de Maio de 1974. Sento-me junto ao grupo que está com o meu pai e escuto aquela conversa que mal entendo:
“ – A revolução agora já não pára… sim temos que continuar para acabar com o fascismo de uma vez por todas… “
Estou numa adega com camaradas – seja isso o que for, mas parece ser porreiro, pois todos se chamam assim – cantamos e comemos e fala-se da luta. Eu brinco com as violas e guitarras. Chega ao pé de mim o camarada Lousã Henriques e fala-me do futuro que sou eu, sem eu entender muito bem aquilo de que fala mas que me faz sentir importante. O camarada Zéca pega em mim e começa a cantar fazendo que eu cante o refrão com ele.
Tenho luzes de trovões na minha cabeça, passam flashes de gritos, provocações e agressões. Estou no meio, choro e tento entender… sinto-me só e perdido. Meu pai só passa por casa de vez em quando para me ver, minha mãe chora e diz que só me tem a mim. Sem entender muito bem começo a passar mais tempo com o meu avô José dos Santos, compra-me uma bicicleta e damos longos passeios nos quais as pessoas perguntam quem sou e ele diz que sou o seu irmão. Vamos pescar, caçar, plantar o milho, apanhar as uvas para fazer o vinho e mil aventuras temos juntos. Estou empolgado e cheio de vida.

De repente olho em redor e estou acompanhado pelo pessoal, todos juntos na frente da escola Rainha Santa Isabel da Pedrulha. Falamos aonde vamos hoje, se ao cinema, se fazer uma patuscada no “Cem Metros”, ou ainda ao Choupal e cada um consulta o seu “Gazetómetro”. Entretanto passa por nós o Prof. Severo de Melo e nunca parando pergunta-me com ar sarcástico: “ - Hoje encontramo-nos na aula? Vais gostar, é sobre a revolução, não é a tua mas a industrial. Hum! Que dizes?” Seguindo o seu percurso em direcção ao Concelho Directivo, de qual faz parte.
Estou olhando o vazio, olhando o nada, não tem cor nem cheiro. Não, espera, tem cheiro… Ah sim, aquele cheiro característico de parque de campismo e olhando melhor em meu redor começo a deslumbrar pessoas. Falamos francês, inglês, alemão e até espanhol, sentados no bar do parque de campismo de Coimbra aonde trabalho. Desde que meu avô José dos Santos morreu não me sentia tão vivo e com vontade de viver, alegre. Faço meu trabalho mas sempre esperando pelo fim da hora de trabalho para ir a correr ter com os meus amigos turistas. Minto, sei bem que mesmo quando estou a trabalhar e principalmente nas noites, estou com eles. Juntamo-nos todos junto á entrada, aonde tenho que estar, e passamos a noite a falar de tudo e de nada. Que sentimento belo e fantástico, não nos conhecemos mas sempre nos conhecemos…

Estou em guerra… não, afinal sou eu a brincar com o Zé Baterias, o Rato e o Raul Barbeiro. Estamos nas férias grandes da escola, aproveitamos os dias para fugir de casa e ter mil aventuras. As idas de bicicleta ao “frigorífico” no Choupal, os pepinos e tomates roubados e comidos no campo do Bolão, as patuscadas feitas com os rôbacos e enguias que apanhamos ao posseiro na ribeira dos Fornos… ah sentimento bom.
Alto não é assim tão bom, o sentimento está a alterar-se. Estou em guerra. Sim é isso, andam a trás de mim, com helicópteros, tenho de me esconder… Tenho de ultrapassar mais esta prova se quero ter o curso de Operações Especiais. Estou em Lamego e vivo a vida a mil á hora. Sou moldado á sua realidade, perfeita lavagem ao cérebro e ao corpo… Estou preparado para matar ou morrer… Somos família e nada mais importa. Acorda… Acorda disso… Já não sei o que é real ou fantasia. Se não serei eu mesmo criado pela fantasia.
Tenho a farda vestida, mas é diferente, sou segurança nos HUC e estou de serviço á porta das Urgências. Ela está a passar e como é apanágio meu digo-lhe de forma sussurrada: - “ Casa comigo, tem filhos meus, faz amor comigo, …”
Olha para mim com desdém e diz simplesmente: - “Parvo!”

Parvalheira, nunca mais passa o tempo… estou a acompanhar a campanha eleitoral com o Videowall da “Publimondego”. Penso quando será o próximo concerto do Luís Represas para o ir fazer ou as “Cantigas da Rua” da Teresa Guilherme.

De repente sinto-me numa sala de cinema aonde passa em “Záping” o meu casamento, o nascimento do meu filho e a morte da minha avó Preciosa… Tudo muito depressa.

Acordo sobressaltado e a transpirar… Gaita passei pelas “brasas”. Estou na piscina de Celas e são 17 horas, depois de já ter trabalhado de manhã na da Pedrulha. São horas de ir embora…











Coimbra, 11 de Dezembro de 2007
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2 comentários:

MLC disse...

Graças a DEus alguém se lembra dos pirolitos como eu me lembro, de bebermos aquilo só para ficar com o berlinde!!!
Grandes recordações... ou foram pesquisas feitas para conheceres a história da tua vida e da tua familia???

pinoquio disse...

já te eskeceste k somos da mesma época?? :)